Mês passado, junho, foi de grande movimentação em prol das causas defendidas pelo movimento LGBT, principalmente em São Paulo. Desde 1997, esta cidade é sede da popularmente chamada “Parada Gay”, uma das maiores do mundo. E também, em termos literários, recebeu atenção especial através de dois saraus sobre temas que tangem essa realidade, um na Casa das Rosas (av. Paulista) dia 16, e outro na Biblioteca Viriato Corrêa (Vila Mariana), dia 23.
O diferencial desses dois eventos foi que os temas discutidos extrapolaram as questões do grupo em questão – que já são muitas e profundas – para tocarem em questões da nossa sociedade como um todo, sobre a realidade brasileira e o tratamento das minorias em geral – algo que nos toca, direta ou indiretamente, todos os dias.
Como ambos os eventos foram feitos a partir da coletânea de contos Fantástica Literatura Queer, lançados pela Tarja Editorial desde ano passado, e mais especificamente por conta da estreia do volume Amarelo, com contos inéditos, vale a pena explicar um pouco sobre essa proposta. Trata-se de um projeto desenvolvido por Cris Lasaitis e Rober Pinheiro, com a proposta de ser um local de acolhimento de novos autores e difusor de literatura fantástica LGBT, algo praticamente inexistente em terras brasileiras. Seu objetivo é o de romper barreiras ideológicas e explorar as varias possibilidades da literatura fantástica também nesse sentido.
Seguindo uma trilha semelhante à antologia, que embasou os dois eventos, este artigo juntará as questões discutidas em ambas as tardes, complementando um com o outro, e oferecendo a você, leitor, uma visão geral do que se passou em ambos. Lembrando que, tanto na Casa das Rosas como na Viriato Corrêa, cada assunto tinha como introdução a proclamação de um trecho de algum dos contos da coletânea, que tocava justamente no que se iria discutir em seguida, sendo um ótimo estopim para dar partida à reflexão.
Hoje o beijo gay é a menor das preocupações. Com esta frase, baseada na polêmica de não aceitação de troca de gestos homoafetivos em novelas, principalmente as de canais abertos, os temas foram levantados, e as discussões tomaram vida e forma.
Primeiro, justificou-se essa afirmação: o número de suicídios por conta da não aceitação social ainda é preocupantemente alto; a bancada religiosa e pouco tolerante a essas questões ainda tem grande peso na política brasileira; o próprio sistema educacional é antiquado e muitas vezes intolerante; e por fim, uma grande parte das famílias, e a sociedade brasileira como um todo é, essencialmente, machista e intolerante com relação às minorias, sejam elas quais sejam.
A partir daí, iniciaram-se os aprofundamentos.
A questão do suicídio, apesar de ser um “tabu” em vários círculos sociais, e malvisto na própria sociedade – principalmente na ocidental cristã –, se trata de uma questão infelizmente comum na vida dos excluídos, que buscam na morte o alívio, o descanso, a fuga da realidade que lhe pesa demais nos ombros e no peito. E como faz parte do cotidiano, também faz parte da literatura LGBT, principalmente na internacional, norte americana e europeia. Esse tema e estilo de vida, herança do Romantismo do século XVIII, onde os jovens viviam pouco e intensamente, e buscavam na morte a solução para seus problemas, foi tão recorrente nessa linha de literatura, que foram precisos alguns séculos de lutas para que finais felizes, mesmo que fantasiosos, fossem aceitos pelos próprios leitores e consumidores dela.

Dramatização do conto “É Foda Viver”, de Camila Fernandes, publicado no volume Vermelho da FLQueer, com as atrizes Priscila Oliva e Adriana Chiovatto – Biblioteca Viriato Corrêa
As razões de tais “atentados contra a vida” – ou simplesmente “a melhor saída encontrada por quem o faz” –, são mais profundas do que se pensa. Vão um pouco além da pessoa em si, e de sua pressuposta fragilidade e incapacidade de enfrentar os problemas da vida. Geralmente tais causas estão ao redor da pessoa, em forma de familiares, de companheiros, em forma de trabalho; se trata da questão do ponto de referência externo. Começando pelos pais na infância, indo para os amigos e ídolos na adolescência, e podendo se ampliar na fase adulta para colegas de trabalho e outros conhecidos, a comparação com o próximo se trata de uma necessidade básica do ser humano para a construção do “eu”. Nos identificamos a partir de nossos modelos, e de nossas diferenças com relação aos que nos rodeiam. Porém como fica a vida de alguém que cresce numa família que não aceita sua condição, e que não oferece base nenhuma de comparação além da repulsa, da negação, do preconceito? Como será que fica a vida mental de alguém sem nenhum porto seguro?
Claro, sempre há a possibilidade de diálogo, de confissão, de apelo à aceitação; mas e o medo do não? E a provável briga e afastamento de quem te trouxe ao mundo e te criou, e que, de uma forma ou de outra, você ama acima de muitas outras coisas?
Invertamos então o ponto de vista da pessoa excluída para a família que exclui. Temos aqui a questão de que, quando a mãe fica grávida, junto com o filho nasce o sonho, o desejo de que o novo membro seja perfeito segundo os próprios modelos de perfeição por parte dos pais e familiares. Durante nove meses gesta-se tanto o bebê como o ser imaginário de sucesso, que atingirá toda e qualquer aspiração, e que se encaixará em todos os modelos de preferência. O problema é que nunca é assim. E os pais tem que lidar, a partir do nascimento, com a quebra dessa alta expectativa. E se isso já lhes é doloroso com as pequenas coisas, imagina com as consideradas grandes por nossa sociedade, como a questão da sexualidade. E por vezes, o luto é tão grande, que passa a ser negado, e é daí que nasce a não aceitação.
Não aceitação esta, que, como se pode perceber acima, se estende a questões não só da sexualidade como da beleza física, do caráter, do sucesso profissional, dos objetivos de vida e dos ideais – sociais, políticos, religiosos. Todos que saem do modelo socialmente aceito (ou familiarmente aceito) com relação a qualquer uma dessas esferas já é considerado à parte, e não merecedor da participação em certos grupos. Trata-se da intolerância com relação às minorias. Intolerância esta que está presente não só fora como também dentro dos próprios grupos de minorias, incluindo o LGBT.
O caso dos transexuais é um exemplo claro dessa realidade, pois mesmo dentre “os seus”, são geralmente associados à prostituição, não vistos como iguais, mas como párias. Como resposta a essa violenta discriminação social, eles geralmente se excluem e se fecham em seus grupos, o que acaba por fomentar essa visão. Tanto que ninguém, nem da plateia ou dos palestrantes, em ambos os dias de conversa, conseguiu citar um autor trans sequer. Ou seja, eles ainda não tem voz, nem mesmo dentre o grupo em que se inserem – e aqui vai uma crítica construtiva feita em ambos os dias: é necessário que se levante e faça acontecer, ao invés de se fechar em seus objetivos e percalços pessoais. Claro que, como visto acima, as vezes esse levante se torna meio impossível; mas também não precisa ser algo enorme, basta ser eficaz e inspirar os outros para ser heroico.
“Ser herói” significa se sacrificar em nome de algo. E como foi bem dito na Viriato Corrêa, “se hoje há algumas permissões, foi porque alguém se sacrificou pra isso”, e “a atitude pessoal também é uma atitude comunitária, ou seja, a exposição de uma pessoa pode mudar o rumo da vida de várias outras”. Em outras palavras, por vezes muitos de nós nos acomodamos nas reclamações e negatividades, e não fazemos nada para mudar isso. Claro, há o medo, há a possibilidade de falha; mas o que da vida é diferente? O medo do desconhecido, todos nós temos; os 50% de chance de dar certo, e os outros 50% de dar errado estão sempre presentes em todos os aspectos do cotidiano. Então por que não sair do conforto, e tentar algo além? Sacrificar-se em prol de algo maior, mesmo que em primeira instância seja movido por um interesse pessoal? Afinal, já que se está, de alguma forma, fora do “lugar esperado” na sociedade, por que não fazer o possível para que ele se torne, mesmo que apenas futuramente, algo também esperado, mostrando a todos que não se trata de nada de outro mundo, mas sim a realidade possível e preferível a muitos de nós?
Falando em lugares esperados, já perceberam que a maioria dos personagens gays, inclusive atualmente, são estereotipados? Novelas, séries, livros brasileiros, norte americanos, e uma parte dos europeus – estes não tanto como os dois primeiros, por serem um pouco mais tolerantes. E que a maioria deles são personagens secundários? E que, apesar de tudo, estão quase sempre presentes em várias obras, de romance a quadrinhos?
Ou seja, será essa questão tão pouco “normal” (= socialmente aceito) assim?
Será que a questão-problema aqui não é mais para o rótulo do que para a aceitação social? Mais para o lugar esperado do que para o preconceito intolerante?
Só para dar mais um nó na cabeça de vocês, aqui vai outra questão que coloca em cheque as perguntas acima (e sim, estou sendo explicitamente contraditória): existem, sim, três pontos graves de intolerância na sociedade brasileira.
1. o sistema educacional,
2. a bancada religiosa influente na política, e
3. a sociedade machista em que vivemos.
Sobre o primeiro, quem já não viu um menino xingando o outro de “viadinho” e a professora se alterando ao repreendê-lo: “não fale assim menino, que é feio!”? O quanto de preconceito não está embutido nessa repreensão? Afinal, por que a orientação sexual de alguém é motivo de xingamento? Não deveria ser apenas uma característica, como alto, magro, loiro, frio ou “manteiga derretida”?
E quem já não ouviu algum caso onde colegas, sejam eles crianças ou jovens, que mostraram afeto a outro do mesmo sexo, e foram ou expulsos ou separados de sala?
Se isso não é intolerância, o que mais seria?
Aliás, falando em intolerância relacionada a jovens, foi levantada a questão muito interessante, apesar de triste, de que atualmente se está educando as crianças para serem mais intolerantes e mais ligadas aos estereótipos e “lugares esperados” do que antes. Por que? Bom, porque é muito melhor, mercadologicamente falando, que se vendam brinquedos especiais só para meninos, e outros só para meninas; roupas, idem; acessórios, idem; ídolos idem; etc, etc. Preocupante? Sem dúvida; tem saída? Claro que sim, mas ela ainda precisa do pontapé inicial, e da força de vontade de mudar, e não ceder à pressão social para retornar-se ao esperado (isso sim é uma tarefa heroica, não acham?).
Sobre o segundo, já se sabe muito bem que a bancada religiosa no Brasil é muito influente na política – a ponto de barrar discussões importantes como a do lugar e direitos da mulher na sociedade brasileira (o que aconteceu durante a Rio +20; você por acaso ficou sabendo disso?). Mas a questão não para por ai, se estendendo até a preocupante realidade da fé se tornar um suborno espiritual, ou seja, só se você seguir fielmente as doutrinas que conseguirá o que deseja, seja na terra, seja no céu. E isso guia a vida de muitos, até hoje – não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos. São doutrinas intolerantes porque não acompanharam as mudanças na sociedade, e se apoiam em valores já antiquados, elaborando a partir delas um discurso de ódio contra os grupos LGBT. E como ódio, ainda e infelizmente gera o ódio, são movimentos como esse que criam seus contrapontos nos grupos excluídos. Sim, existem também os discursos “heterofóbicos”. Extremistas também, e questionáveis à mesma medida.

Leitura dramática de contos, para dar início ao tema proposto, com Dri Chiovatto e Cesar Sinicio – Biblioteca Viriato Corrêa
Outro problema é que não é só a religião que é antiquada neste país, mas também o é a base social brasileira, onde a mulher ainda é vista como ser inferior e indigno, e tudo o que tange a ela e suas atividades e posições socialmente esperadas também o são. Tanto que, até em relação à questão da homoafetividade, o “homem da relação” é ainda melhor visto que a “mulher da relação”, sendo esta tida como objeto a ser subjugado, algo menor, insignificante, e em vários casos, vergonhoso.
E depois de tantas questões filosóficas sociais e políticas, muitos de vocês podem perguntar: “e o amor, onde fica?” E eu respondo: fica por último, porque, quando saudável, é o melhor e maior dos sentimentos, e merece ser o assunto de fechamento destas discussões.
Amor de mãe, de irmão, de companheiro, de casal. Uma força muito poderosa, e muitas vezes distorcida, quando não aceita ou não entendida. Assim como foi, por muito tempo, a do amor homossexual na literatura, sempre associado – aliás, até hoje grandemente associado – à pornografia. Por que? Bom, é simples: pornografia = errado; homoafetividade = errado; portanto, homoafetividade = pornografia. E chegamos aqui, novamente, à questão dos estereótipos e do lugar esperado. E é justamente ele que a Fantástica Literatura Queer quer romper. Ocupando um espaço de produção criativa e reflexiva ainda vago no mercado literário brasileiro, esta série de coletâneas se propõe mostrar as várias faces do amor puro ao amor mais lascivo (claro, afinal ele também existe), dos relacionamentos, dos laços sociais, das fantasias e seres imaginários que também podem passar por isso – por que não? Do quanto o ser humano é capaz de amar de fato, e da conveniência dos relacionamentos. Da própria questão do apaixonar-se, da descoberta do amor, da fragilidade sentimental dessa época da vida, e da própria questão pessoal e ao mesmo tempo tão universal que é o ser ou não aceito por quem se quer bem.

Cesar Sinicio, autor do conto “Eu Tenho um Disco Voador na Garagem” (volume Vermelho da FLQ), canta Renato Russo (“Meninos e Meninas”) ao final das discussões – Biblioteca Viriato Corrêa
> Veja também:
Indo à Fonte: E Por Falar em Amor… http://www.revistafantastica.com.br/colunas/17-e-por-falar-em-amor-4/
A Voz do Editor: A Violência Sentimental
http://www.revistafantastica.com.br/colunas/a-voz-do-editor-39-a-violencia-sentimental/
Repórter Mirim: A Arte de Matar Personagens http://www.revistafantastica.com.br/colunas/a-arte-de-matar-personagens-i/
> Relacionados:
Cobertura fotográfica dos dois eventos:
Casa das Rosas:
http://www.flickr.com/photos/maribassi_proladodefora/sets/72157630155294684/
Viriato Corrêa:
http://www.flickr.com/photos/maribassi_proladodefora/sets/72157630265131194/
Fantástica Literatura Queer: http://tarjaeditorial.com.br/tarja/?p=269
No Skoob (volume Laranja): http://www.skoob.com.br/livro/174667-a-fantastica-literatura-queer
Tumblr: http://flqueer.tumblr.com/
Blog oficial da antologia: http://queerfiction.wordpress.com/
Fanpage oficial: http://www.facebook.com/flqbr
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