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Publicada/atualizada por Luiz Ehlers em 20/06/2012, às 18:56 | 2 comentários
E por Falar em Amor (2)
Segunda parte do texto sobre os grandes casais da literatura.


 


Autores e leitores adoram amores proibidos, seja do jeito que for, mas estes estão longe de serem os únicos a inspirarem nossas ficções. Há amores que, depois das agruras iniciais tem tudo para dar certo, mas, infelizmente, não dão. Algo sai errado ou, na maior parte das vezes, um dos apaixonados revela-se menos apaixonado do que deveria. Ou seja, são romances em que depois do “feliz para sempre”, as coisas vão para o beleléu. Selecionei três dessas histórias para vocês, histórias de amores que não deram certo.

 

Jasão e Medeia

 

Esta história é, sobretudo, trágica e tem inspirado autores desde a antiguidade. Medeia, por sua trajetória, foi associada pela cultura judaico-cristã ao modelo mais terrível de mulher: o da anti-mãe, agravado pelo fato de ser ela uma bruxa. Mas, vamos à história.

Como muitas narrativas mitológicas, esta é ligada a outras. Hele e Frixo eram dois irmãos que viviam em Tebas no castelo do pai, Atamas. Junto com eles vivia a madrasta dos príncipes, Ino. Esta se apaixonou por Frixo e por ele foi rejeitada, fazendo com que passasse a perseguir o rapaz e sua irmã. Como uma grande fome tomava a região, Ino subornou o leitor dos oráculos para que ele dissesse que a salvação estava em sacrificar os dois jovens. Quando o sacrifício estava para ocorrer, Nefele – mãe do casal de irmãos e protegida do deus Dionísio – apareceu metamorfoseada em nevoeiro cegando a todos e entregando aos irmãos um carneiro de pele de ouro. Este animal, conhecido como o Tosão de Ouro, os carregou dali em direção à Ásia. Hele caiu no mar, o local ganhou o nome de Helesponto. Frixo conseguiu chegar à Colchida (atual Georgia, às margens do Mar Negro), mas lá foi morto pelo rei Eetes, que também sacrificou o Tosão de Ouro e colocou sua pele a ser guardada por um dragão, num campo cercado por touros de pés de bronze que lançavam chamas pelas narinas.

Eetes era o pai de Medeia.

Na Grécia, os príncipes sentiram-se aviltados pelo assassínio de Frixo e pelo roubo do tosão e se dispuseram a ir recuperá-lo. Para tanto se construiu um navio sem igual, capaz de carregar 52 heróis e suas comitivas. Hércules, Teseu e Orfeu estavam entre eles. O navio foi chamado Argo (ágil, em grego; ou, talvez, por seu projetista: Argosto) e tornou-se ele próprio uma lenda, já que, por conta de seu mastro – feito de um carvalho da floresta de Dodona – era capaz de pronunciar oráculos. Sua lenda também se deve ao brilhantismo de sua tripulação, daí para diante, para sempre conhecida como Argonautas.

Jasão, príncipe da Tessália e parente de Frixo, era o chefe da expedição.

Depois de muitas aventuras e obstáculos (nem só da Odisséia vive a mitologia de aventuras), os Argonautas chegam à Colchida. Juno e Minerva, para facilitar a jornada do herói, fazem com que Medeia se apaixone por ele e coloque a sua disposição sua capacidade de usar a arte dos encantamentos, a bruxaria. Contudo, em troca da ajuda, Medeia exige de seu amado um juramento de fidelidade, que este faz de bom grado junto ao templo de Hécate.

Eetes exige do herói que subjugue os dois touros e os coloque em uma charrua de diamante, com a qual deveria lavrar o campo em torno do Tosão, semeando por ele, dentes de dragão, do qual nasceriam soldados armados. Estes deveriam ser vencidos, assim como a fera que guardava o Tosão. Jasão aceita o desafio. Sai-se bem com os touros, provoca os soldados para que lutem entre si e derrotem-se mutuamente e, por fim, adormece o dragão com uma beberagem fornecida por Medeia. Eetes fica furioso e põe-se a perseguir os amantes e o Argos que fogem por mar.

Para impedir que o pai os alcance, Medeia e Jasão matam o irmão mais novo desta e semeiam seu corpo em pedaços pelo mar. Eetes fica a recolher o filho e os deixa ir a diante. Jasão acaba por não conseguir recuperar o trono que lhe era de direito, mas ele e Medeia encontram refúgio e fortuna em Corinto, onde por 10 anos vivem felizes.

Seria bom para o fim, mas… Jasão apaixonou-se por outra e repudiou Medeia. A fúria de Medeia vai além de qualquer medida. Ela mata a rival, o pai desta e, para punir o marido, também os dois filhos que haviam tido juntos. Após esse episódio, ambos os ex-amantes se torna errantes pela Grécia. Medeia ainda se casará duas vezes e virá a ser mãe de Midas.

Os autores se dividem sobre a culpa do fim deste romance. Muitos escolheram ver em Medeia a maior de todas as megeras. Outros viram nela uma virtuosa princesa, que usava suas artes mágicas para o bem, e cujo maior interesse era opor-se às crueldades do pai, porém, ela teve um momento de loucura (como o próprio Hércules), sem encontrar o mesmo perdão.

Eurípedes, Corneille e Chico Buarque (na peça Gota d’água, de 1975) recontaram essa história.

 

 

Apolo e Cassandra

Cassandra era a princesa de Tróia. Filha de Príamo e Hécuba, irmã de Heitor e Páris. Sua beleza e encantos eram tamanhos que o próprio deus Apolo apaixonou-se por ela. Perdido de amor o deus ofereceu à jovem de tudo para conquista-la. Mas, Cassandra tinha tudo, era bonita, rica, e vivia em uma família feliz. Apolo lhe ofereceu, então, o dom da profecia, e não aquela profecia por enigmas, mas a real capacidade de ver o que iria acontecer. Cassandra se encanta com a oferta, afinal, seria uma forma de sempre poder alertar a sua família e ao seu país o que lhes viesse ameaçar. Ela então entrega-se ao deus.

Contudo, Apolo (após conseguir o que queria, claro) se arrepende, porém, não lhe é possível retirar o dom dado. Ele sabe que é muito poder nas mãos de uma mortal e, no artifício de um beijo, cospe em sua boca. A partir daí, mesmo que Cassandra veja o futuro e tudo o que vai acontecer, ela é desacreditada e, por fim, presa em uma torre como louca. Ela alerta a todos que Páris trará a ruína à Troia e prediz cada movimento desde a chegada de Helena. Quando a cidade é tomada, Cassandra é violentada por Ajax e depois tomada como butim por Agamenon. Ao retornar com este para casa dele, ela prediz a morte de ambos e dos filhos que tiveram pelas mãos de Clitemnestra, a primeira esposa do rei de Micenas.

 

 

Teseu e Ariadne

Teseu foi o décimo rei de Atenas e um dos mais famosos heróis gregos, seus feitos são muitos e são contados desde sua mais tenra idade. Ele chegou a ganhar o epíteto de filho de netuno, mas não possuía sangue divino. Teseu era filho do rei Egeu e sua personalidade audaz o fez protagonista de um dos episódios mais recontados da mitologia: ele venceu o Minotauro (monstro com corpo de homem e cabeça de touro) e o labirinto do rei Minos.

Conta-se que Atenas tinha um pesado e triste tributo para com Creta. Por ter nesta cidade sido assassinado o filho do rei Minos, este exigia que, a cada sete anos, Atenas enviasse sete moças e sete rapazes, designados pela sorte, que seriam entregues a sanha do Minotauro. Teseu se dispôs a salvar a cidade e perguntou aos Oráculos se os deuses lhe eram favoráveis. Estes responderam que sim, mas somente se o Amor lhe servisse como guia.

Em Creta, Teseu acaba atraindo os olhares de Ariadne que se apaixona por ele. É ela quem lhe dá o novelo com o qual ele pode entrar e sair do labirinto, após matar o Minotauro. Em algumas versões, é a jovem princesa que também lhe consegue a espada. Ao partir de Creta, Teseu leva a jovem consigo, com a promessa de desposá-la, porém, ao chegarem à ilha de Naxos, ele a abandona. Alguns poetas formularam hipóteses de que Teseu foi obrigado a isso, mas nem as hipóteses são muito convincentes, nem os poetas são muito eloquentes nesta defesa (ok, eu prefiro não acreditar nestas versões). Muitos dizem que Teseu jamais voltou a encontrar a felicidade no Amor, por ter traído este primeiro, aquele que o Oráculo lhe havia predito.

Ariadne, a jovem que abandonara e traíra a família por amor, se desespera e pensa em suicidar-se. Ela quase o faz. Porém, do alto de sua carruagem celeste, Dionísio, deus do vinho, da civilização e da alegria, a vê e apaixona-se perdidamente por ela. Nas palavras imortais de Ovídio, diz Dionísio:

 

Venho para te oferecer um amor mais fiel.

Não fiques assustada.

É Baco, ó Ariadne, que terás por esposo.

Aceitas o céu como presente de noivado,

o céu onde será um astro admirado.”

 

(Eu não sei quanto a quem lê esta matéria, mas eu cairia ali mesmo e Teseu viraria história em segundos).

 

Ariadne casou-se com Dionísio e tiveram muitos filhos. Aliás, deste deus, após o casamento, não são narradas infidelidades. Um de seus filhos, Eumedonte, foi um dos heróis do navio Argos.

 

 

Para quem pediu, esta última história termina com um final feliz, para que comprometidos e solteiros se inspirem um pouco mais no mês dos Namorados.

 

 

Até o próximo com os triângulos amorosos.

Comentários (2) | Comente:

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Priscila Louredo comentou em 20/06/2012, às 21:39:

Amei conhecer mais alguns romances da história (mesmo que muitos não tenham terminado bem) . Quem diria que o Dionísio seria fiel! Me amarrota porque eu estou passada!!!

Lívia Cavalheiro comentou em 21/06/2012, às 21:10:

Também amei conhecer novos romances da mitologia! =D

Quanto a Medeia, eu vou com o julgamento do segundo grupo. Arrisco-me a dizer que a mulher enlouqueceu de tanto amor e ficou fora de controle.

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