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Indo à Fonte, por Nikelen Witter
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Publicada/atualizada por Nikelen Witter em 13/04/2012, às 00:03 | 5 comentários
Os Dragões
Saiba mais um pouco sobre essas fascinantes criaturas.




nikelen@revistafantastica.com.br


Em 2006 fui a uma interessante exposição no Museu de História Natural em Paris. Os biólogos da instituição haviam resolvido brincar com a imaginação e fizeram uma exposição inteira dedica aos dragões. Até mesmo um esqueleto completo foi montado e havia quadrículas de terra em que era simulada a escavação desses fósseis. Havia amostras de pele, cacos de ovos, modelos em papel marche e fibra de vidro, um número enorme de livros e, ao fim de tudo, um globo. Nele estavam marcados todos os tipos de dragões existentes nas mais diferentes culturas humanas espalhadas pelo planeta. Encantada, eu saquei de lápis e meu inseparável bloquinho e copiei, já que não era possível fotografar. Não é uma lista exaustiva, mas é muito instigante e dá asas à imaginação. Há muito tempo eu queria compartilhar esse material e achei que os leitores do INDO À FONTE se interessariam em dar essa volta o mundo procurando escamas de dragão. Vamos à viagem?

 

 

Na Oceania, os dragões mais célebres são:

Peke-Haua, um dragão serpente que vive um buraco no fundo do oceano chamado de A Cova da Escuridão (Te waro uri) e pertence as lendas das tribos Maori. Existem poemas sobre os caçadores de dragões e de como foi possível derrotar Peke-Haua, misturando vinho à água em que ele vivia, fazendo o dormir e assim sendo possível arrastá-lo para fora de sua casa e matá-lo.

Lenda Maori sobre os caçadores de dragões: http://www.nzetc.org/tm/scholarly/tei-Pom01Lege-t1-body2-d35.html

 

Yurlungur é a feroz serpente gigante dos aborígenes australianos, também chamada de serpente arco-íris, é descrita como sedenta de sangue. Conta-se que Yurlungur foi despertado de seu sono pelo cheiro do fluxo menstrual da irmã de Wawalag e que devorou a ambos, inteiros, mais tarde, foi obrigado a regurgitá-los. Essa imagem faz parte dos rituais que entronizam os meninos na masculinidade.

 

Na Índia:

Apalala é um dragão com rosto humano e corpo de serpente, mas pode mover-se sobre os pés que lhe saem do meio do corpo. Guarda as vilas para impedir a entrada de dragões hostis, em troca de oferendas.

 

Na Ásia:

Naga Kanya é um dragão feminino, também com corpo de serpente e igualmente um protetor. Porém, o termo Naga, em sânscrito, designa também um grupo de divindades hindus com corpo de cobra que tem uma ou várias cabeças. Em muitos casos, estes seres são representados como maléficos, sendo perseguidos e sacrificados. Um Naga feminino é uma nagini (alguém fez a ligação?).

 

O Dragão Chinês é um dos mais célebres do mundo e não lhes faltam lendas e histórias. Tem o corpo de serpente, o focinho de dromedário, bigodes de carpa, olhos de tigre, as patas de leão, as garras de águia e cinco chifres de veado. Os dragões chineses são dos mais apropriados pela cultura ocidental e re-significados em jogos, histórias, RPGs. As informações são tantas que para saná-las apenas em parte seria necessário um longo artigo só para isso.

 

 

Pérsia:

Tiamat, a serpente marinha da origem do mundo. Esta deusa, cuja associação com dragões se dá pela aproximação de sua descrição, foi a mãe de todas as coisas e seres e, após ser destruída pelo deus Marduk teve seu corpo convertido no próprio universo. Outra criatura que merece um artigo apenas para ela.

 

África do Norte:

Apophis serpente gigante, por vezes descrita como alada. É um dragão egípcio que vive na escuridão e é inimigo de Rá, o deus Sol. Personifica o Mal e o Caos e sua existência é dedicada a perseguir o sol em sua jornada subterrânea para tentar impedi-lo de tornar a nascer. Interessante é que este foi o nome dado pelos cientistas ao asteróide 99942 Apophis (se alguém quiser virar aqueles 9s para fazer alarde, vá em frente) que desde 2004 vem sendo monitorado em função deste poder vir a se chocar seus 350 metros com a terra. A possibilidade é de 1 para 12,3 milhões, mas tem gente assustada. As datas de provável impacto vão de 2029 a 2037. Bem, se passarmos por 2012, você já tem com o que se preocupar. Tenha sua toalha à mão.

 

Europa:

Os mais célebres dragões são a Hidra grega e o dragão medieval. A primeira é uma serpente gigante com sete cabeças e que vive nos pântanos. Se suas cabeças forem cortadas, outra nascerá no mesmo local o que a torna virtualmente invencível. O herói grego Hércules conseguiu a façanha junto com seu sobrinho Iolaus. Enquanto Hércules decepava as cabeças, Iolaus cicatrizava o local com fogo, impedindo assim que a carne nua germinasse novamente.

 


O dragão medieval é um velho conhecido, fazendo parte das histórias de nossa infância e sendo exaustivamente representado. É descrito como um monstro com cara de crocodilo ou leão, asas de morcego, corpo de serpente e pés de águia. Para os cristãos se tornou um símbolo do mal e aparece sendo morto por São Jorge. Pragas de dragões e os cavaleiros que os matam são bem comuns nas lendas medievais.

 

 

América do Norte:

No Quebéc, os índios descreviam um dragão semelhante a uma baleia, meio cetáceo, meio serpente. A descrição dessa baleia-réptil aproxima-se do que nos tem sugerido recentes descobertas de fósseis sobre predadores marinhos da era Pré-histórica. Não, não estou sugerindo que há ainda existiriam espécimes assim na era histórica, apenas… ok, fica a questão.

Em Illinois, nos EUA, uma série de pinturas descobertas em cavernas no século XVII, sugeriu que os índios da região de Piasa tinham seu próprio dragão – batizado com o mesmo nome. Tratava-se de uma ave-dragão com rosto humano e olhos vermelhos, chifres de cervo e uma barba branca. Os índios acreditavam que ele havia se tornado um devorador de homens ao experimentar, após um combate, o sabor da carne humana. De acordo com alguns registros, este dragão poderia respirar fogo.

Para saber mais: Dragons: A Natural History. 1995. Dr. Karl Shuker. Simon & Schuster, New York. Pages 66-69.

 

 

América do Sul:

Na Patagônia, o Iemisch (ou Yemisch) é um dragão descrito como um tigre da água ou uma raposa com cauda de serpente, capaz de esmagar suas presas. A simples menção de seu nome aterrorizava os nativos que se recusavam a dar mais detalhes sobre a terrível besta.

 

No Peru, o dragão é uma serpente de duas cabeças, uma para cada lado, simbolizando a dualidade da natureza. Seu nome: Coatlicue.

O mais famoso, porém, é Quetzalcoatl, a serpente emplumada do México, capaz de se metamorfosear em homem, ventos ou nuvens.

A exposição ainda trazia algumas curiosidades como a referência à dragonite, uma pedra que existia dentro do crânio dos dragões e que curava a peste, parava hemorragias e aumentava o ardor sexual. No século XV, no monte Pilate, nos Alpes, um dragão perdeu a sua em pleno voo.

 

O Museu ainda citava o nome de três grandes especialistas na pesquisa destes animais.

 

- Conrad Gesner (1516-1565), naturalista suíço que em seu Historiae animalium, descreve existir três tipos de dragões: as serpentes gigantes, as aladas e os verdes.

- Ulisse Aldrovandi (1522-1605), nascido em Bolonha em uma família nobre, dedicou-se por gosto ao estudo da História natural. Em seu livro Serpentum et Draconum, ele descreve e desenha dragões.

- Thomas Hawkins (1810-1889) autor de “The Book of the Great Sea- Dragons” e “The Memory of Ichthyosauri and Plessiosauri”.

 

Espero que tenham apreciado a viagem pela memória desta exposição fascinante do Museu de História Natural de Paris. Se gostam de dragões, levantem as mãos! Quem sabe eles não voltam a aparecer por aqui?

 

Até a próxima!

Comentários (5) | Comente:

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Lívia Cavalheiro comentou em 13/04/2012, às 13:04:

Bom, que eu AMO dragões, pra você não é tanta surpresa..rsrs… Só não faço uma tatoo, porque não quero ter um dragão pelancudo aos 80 anos..hahahaha… Os dragões chineses são pra mim os de maior misticismo, que nos deixam brincar quando pensamos em arte fantástica. Já Tiamat eu adoro a história, acho interessante essa coisa de “Mãe Dragão”. Quando ao feminino de Naga – nagini -… É tão bom ver que nossos autores favoritos não dão ponto sem nó!!! Adorei isso, Nika! Melhorando meu conhecimento sobre dragões! =D Além daquele dragão chinês, voando no céu…mas isso é outra história. Literalmente..hehe.

Walter Tierno comentou em 13/04/2012, às 14:25:

Como sempre, sensacional o Indo à fonte.
Eu tenho um desafio para você: Indo à fonte mostrando a origem das principais criaturas fantásticas. A começar pelos vampiros. As pessoas confundem a proposta de Anne Rice com uma espécie de patente do vampirismo.

Nikelen Witter comentou em 13/04/2012, às 14:36:

Pois é, Livia, há autores que tem este cuidado e colocam universos inteiros de referências sob cada nome, cada ideia. Quanto aos dragões chineses, logo logo haverá um INDO À FONTE sobre Mitologia Chinesa e isso dará muito pano para manga, hehe.
Que bom que gostou, Walter. Seu desafio está aceito e publicado, hehe. Na verdade são 4 postagens que fiz no meu blog historiando o mito dos vampiros desde a Mesopotâmia. Até pensei em republicá-los aqui… é uma ideia. Mas, estão lá no Sapatinhos Vermelhos com o título Vampiros: sangue e sexo.
Quanto à patente de escritores modernos sobre certos mitos é aquele tipo de coisa que acaba depondo contra o público leitor. Acredita que já li gente dizendo que a S. Meyer inventou os lobisomens? É de cair da cadeira.

Walter Tierno comentou em 13/04/2012, às 14:51:

Pessoas, aqui está o desafio (previamente) respondido: http://sapatinhosvermelhosnika.blogspot.com.br/2011/07/vampiros-sangue-e-sexo-terceira-parte.html#uds-search-results
Recomendo.

Raphael Arkanjo comentou em 30/05/2013, às 00:06:

Faltou o Monstro do Lago Ness!
Mas gostei muito da postagem!

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