E ai gente? Desta vez, trazemos uma velha entrevista com o autor Leonel Caldela falando um pouco de seu primeiro livro pertencente à sua, agora concretizada, trilogia da “Tormenta”. Com vocês, Leonel Caldela e seu livro, ” O Inimigo do Mundo”.
1 – Passar uma mensagem, causar reflexão ou simplesmente entretenimento são normalmente as respostas dos autores quando questionados sobre o objetivo de sua escrita. O que a sua saga quer passar para quem a lê?
Essencialmente, é entretenimento. Transmitir uma história, envolver o leitor com os personagens. Mas é verdade que eu tenho uma pretensão: digamos que a trilogia queira transmitir um “entretenimento pensante”. Ou seja, em vez de apenas ler e esquecer meia hora depois, a idéia é que o leitor também curta o livro após a leitura — seja pensando em algum subtexto, questionando as motivações dos personagens, percebendo algum detalhe ou mesmo imaginando o que poderia ter sido diferente. Eu procuro escrever histórias que são, no seu centro, sobre pessoas. Então, se a trilogia quer “passar” algo para o leitor além de mera diversão, talvez seja uma discussão sobre nós mesmos, por que fazemos as coisas que fazemos e qual seriam nossas atitudes em determinadas situações.
2– O Inimigo do Mundo (Editora Jambo) é a primeira parte de uma trilogia inspirada no RPG Tormenta. Como é o processo de criação de uma literatura derivada de um RPG? Isso facilita a escrita ou acaba dificultando?
Como foi o meu início, posso dizer que facilitou bastante. Afinal, eu pude trabalhar sobre um cenário já construído, não precisei me preocupar com cada detalhe de um mundo secundário. Pude me concentrar nos personagens e acontecimentos. Em teoria, um cenário pré-construído (seja de RPG ou outro) pode limitar bastante um autor — mas isso não aconteceu comigo; recebi imensa liberdade dos criadores originais de Tormenta.
No entanto, lidar com um público já estabelecido também apresenta suas dificuldades. O público de Tormenta é muito exigente; era preciso manter um controle de qualidade muito grande para ser aceito.
No geral, foi uma experiência ótima. Acabou me preparando para escrever em um cenário próprio, como é o caso de O caçador de apóstolos.
3 – Mesmo tratando do seu primeiro trabalho, você não foi modesto no número de páginas, que ultrapassam 400. Muitas vezes uma obra com este tamanho não é indicada a um autor novato. Existe uma razão pela qual você se manteve firme na aposta da história mesmo com este número elevado de páginas?
Para falar a verdade, no início eu não tinha noção de que a história ocuparia tantas páginas. Sendo absolutamente novato, não sabia medir quanto espaço eu precisaria para encaixar todo o enredo. Então não foi algo absolutamente consciente.
Mas, uma vez que o livro estava em andamento, eu sabia que não poderia mais recuar, se quisesse mesmo me tornar um profissional. Não poderia simplesmente dizer que o trabalho estava grande demais e abandonar na metade. Foi um exercício de disciplina. Ter um editor (o J.M. Trevisan, um dos criadores do cenário) acompanhando o processo ajudou muito. Dificilmente eu teria conseguido se não houvesse uma orientação (e até cobrança!) como essa.
4 – A trama conta a trajetória de um grupo de nove aventureiros em busca de um misterioso e sanguinário assassino: o albino. Os personagens e suas relações formam o coração da história mais até que sua missão propriamente dita. Poderia se afirmar até que o protagonista da história é o grupo. Partindo desta afirmação, houve alguma dificuldade na condução e criação de uma história onde nove pessoas têm que ter destaque?
Sempre há dificuldades, claro. E lidar com tantos personagens é difícil (em meus outros livros, o número de protagonistas é bem menor). Mas, como tu mesmo falou, o âmago da história acaba sendo o grupo e as relações entre eles. Assim, em determinado momento os personagens já estavam tão “internalizados” que escrever situações com eles era algo natural. Não era necessário ficar pensando sobre o comportamento de cada um em cada situação, ou quem seriam as figuras centrais de cada cena. O processo criativo era muito rápido, pois eu conhecia os nove intimamente.
Acho que o maior problema foi criar algum tipo de conclusão satisfatória (ou propositalmente insatisfatória) para todos. Era um verdadeiro exercício de evitar repetições e não esquecer de ninguém…
5 – O livro é carregado de uma atmosfera de angustia, violência e horror. Os personagem passam por inúmeras situações desesperadoras e intensas. Como é o seu processo de criação da angústia e desespero que a trama exige? Isso te afeta de alguma forma ou existe uma separação clara?
Os trechos mais “pesados”, por assim dizer, vêm com muita naturalidade. O processo de criação é fluido, bem mais do que em trechos de calma ou felicidade. Em geral, passava por questionamentos sobre as piores coisas que poderiam ocorrer com pessoas de quem gostamos, e como seria a reação dos outros ao redor.
Mas isso nunca chegou a me afetar pessoalmente. Pelo contrário; mesmo pensando em atrocidades e em como eu mesmo reagiria a elas, sempre tive um distanciamento bem pronunciado da história, podia escrever esses trechos e depois ir fazer qualquer outra coisa, sem que eles ficassem me incomodando. Talvez seja até mesmo uma boa forma de “colocar para fora” partes mais violentas da imaginação. Tudo isso fica às claras, no papel ou na tela do computador, deixa de ser algo inquietante ou amedrontador.
6 – A história tem elementos de extrema violência tanto física como psicológica, além de trazer elementos mais sexuais. Estes traços afastam teoricamente o público mais novo. Embora muitos afirmem que fantasia não tem idade, O Inimigo do Mundo tem?
Acho que o livro destina-se a adolescentes e adultos (mas claramente existe uma pegada mais jovem, com ação, um pouco de humor, etc.). Pessoalmente, não acredito em proibir ninguém de ler coisa alguma — mas imagino que pessoas menores de, digamos, 13 anos devam ter orientação dos pais para ler OIdM.
7 – Atualmente usar elementos como elfos, mapas e dragões obrigatoriamente remetem a história ao Senhor dos Anéis, mesmo que o próprio Tolkien tenha tomado estes seres de mitologias prévias. Em sua visão, como uma história de Alta Fantasia, ou seja, que usa estes elementos, pode ganhar espaço escapando desta comparação com o Senhor dos Anéis, que muitas vezes é injusta?
Acho que é impossível evitar toda e qualquer comparação com Tolkien, mesmo que a influência seja indireta e tênue na melhor das hipóteses. Ao meu ver, a saída é reconhecer que sim, sempre existirá influência tolkieniana na alta fantasia, e partir para examinar coisas mais importantes (como os personagens, os acontecimentos…). Tentar negar Tolkien é quase um ato de rebeldia adolescente, apenas chama mais atenção para as comparações.
Mas acho que é um grande erro para autores de alta fantasia endeusar Tolkien ou seguir fielmente seus passos. Eu mesmo não vejo grande influência dele no meu trabalho (exceto pela presença de elfos, anões, etc., em formas desenvolvidas e popularizadas por ele). É preciso ter outras referências, não prender-se a uma só obra como ícone de perfeição.
8 – Da mesma forma que há a afirmação de que fantasia não tem idade, há outra que diz que ela não tem também gênero. O seu livro tem traços de violência e ação, que são, normalmente, atrativos ao público masculino. Em linhas gerais, em sua obra que seria atrativo ou público feminino?
Acho que, em geral, o público feminino se identifica mais com as relações entre os personagens, as amizades, amores, rixas, etc. Mas isso é uma generalização meio grosseira. Conheço várias mulheres que se empolgavam muito com as cenas de combate. A intenção do livro foi criar uma história que todos possam aproveitar em algum nível.
9 – Você tem uma formação ligada diretamente à escrita: Letras. Além dela, existe em sua trajetória uma preocupação em se preparar profissionalmente como autor. Em sua opinião, ainda temos esta carência de preparação e excesso de ansiedade de publicação dentro da literatura fantástica nacional?
Infelizmente, eu diria que sim, no geral. Tenho a impressão de que muitas pessoas acham que basta ter uma história na cabeça, não é preciso aprender a técnica para contá-la.
Mas tenho visto cada vez mais autores de literatura fantástica (e outros gêneros) com estudo (mesmo que não seja estudo formal) e excelente técnica. Não sei qual é a razão disso, mas é uma tendência muito positiva. Espero que se mantenha.
10 – Para aquele leitor que apenas leu o primeiro volume, como eu (risos), o que se pode esperar do restante da Trilogia Tormenta?
Falando francamente, acho que os outros dois livros (O crânio e o corvo e O terceiro deus) são mais maduros. Têm menos personagens, acontecimentos mais conectados entre si e estrutura mais forte. Em termos de conteúdo, “peso”, etc., o padrão é o mesmo. Existe violência, toques de horror, trechos puxados para a escatologia, etc., no meio de elementos mais tradicionais da alta fantasia. Os outros dois volumes também concentram-se bastante nos personagens. Uma das minhas predileções ao escrever é contar histórias baseadas nas ações dos protagonistas e suas motivações, não apenas em um enredo ao redor deles.
Jogo rápido:
Uma grande história épica…
Como assim? Uma grande história épica de que eu gosto? Fico entre a primeira trilogia de Dragonlance, de Margaret Weis e Tracy Hickman (meu primeiro contato com a alta fantasia) e As crônicas de Artur, de Bernard Cornwell (uma das minhas grandes influências).
Uma história essencial para a criação da Trilogia Tormenta…
Lá por 2001, durante seis meses, eu e a minha esposa (noiva, na época) economizamos para ir ao Encontro Internacional de RPG, em São Paulo (moramos em Porto Alegre). No final, esse dinheiro quase foi roubado. Conseguimos ir até lá e conhecemos J.M. Trevisan, um dos autores de Tormenta, para quem entregamos um conto. Um ano depois, ele leu o tal conto e me convidou para escrever para o cenário. A trilogia (e o início da minha carreira profissional) partiu daí.
O seu ser fantástico favorito…
Há um conto do Clive Barker chamado A cabeça descarnada. Leia o conto e veja o meu ser fantástico favorito. ;)
Uma grande história tem que ter…
Personagens marcantes.
Seu RPG favorito….
Dragonlance Fifth Age.
Em uma palavra:
Vallen: teimoso
Elisa: realista
Nichaela: forte
Artorius: estóico
Gregor: otimista
Ashlen: esperto
Rufus: fraco
Andilla: orgulhosa
Masato: perdido
O Inimigo do Mundo em uma palavra: amizade
O Crânio e o Corvo em uma palavra: paternidade
O Terceiro Deus em uma palavra: reencontro
Comente:Eu gostei muito desse livro, mas ainda não li o resto. Quem gosta daquele gênero épico, alta fantasia. não pode perder. Foi uma entrevista bem bacana.
Gostei da entrevista.
Não li ainda os livros da trilogia Tormenta, mas li O Caçador de Apóstolos e recomendo.
Esse livro marcou p/ mim, primeiro pelo fato de eu ser apaixonado pelo cenário de Tormenta e Leonel soube tratar toda a ambientação com uma seriedade absurda.
O trabalho com os personagens foi algo tocante, mesmo com aqueles que caem primeiro, você acaba se apegando com todos, mesmo com sentimentos bons ou ruins.
Os demais livros vem trabalhando tudo de forma épica e cada um com um final p/ te fulminar!
Enfim, a Trilogia da Tormenta foi escrita com uma maestria e a indico tanto para jogadores de RPG quanto para quem não conhece nada de Roleplay.
Ótima entrevista, sem spoilers, que é algo quase raro de não ter.
Foi através deste livro que tive meu primeiro contato com a literatura. Amor a primeira vista. Devorei a Trilogia e pronto: Leonel Caldela se tornará meu autor predileto. Pelo que fez com o cenário de Tormenta que tanto gosto, e pelo estilo abençoadamente doente de escrever.
Agora fiquei curioso em relação a esse “A cabeça descarnada”…
Olá e ai como vai?
Adorei a entrevista *–*
Gostaria de entrar em contato com o escritor…como você fez?
Qualquer coisa:www.rimasdopreto.com ou rimasdopreto@gmail.com
abraços